Sexta-feira, 27 de Janeiro de 2017

Diálogos próprios

A clareira, totalmente cerrada por frondosas árvores, não permitia que avistássemos quem viesse na nossa direcção, a não ser quando já fosse tarde de mais. Devíamos ter previsto isso! Fomos estupidamente descuidados! Pé ante pé Andrew e eu fomos recuando em direcção ao centro da clareira para junto de Charles. Nenhum de nós ousava desviar o olhar da muralha de vegetação que se estendia à nossa frente. Lavei a mente do ruído do pensamento. Lentamente, deixei que os meu sentidos se fundissem com a floresta. Num momento fora do Tempo, os meus ouvidos tornaram-se a terra pisada, o meu olfacto era o vento que agitava as copas das árvores e os meus olhos eram os das aves nocturnas camufladas entre os ramos:

- São quatro, como prevíamos. – disse - Todos Filhos de Rhazalah. Um deles muito antigo, mais que qualquer um de nós...Têm pressa. Os mais novos estão nervosos, um deles dá passadas curtas e pesadas...carrega alguma coisa...está cansado...

Um clic acordou-me. Ao meu lado, Charles fazia estalar as patilhas de segurança de pistolas que parecia tirar de todos os recantos do sobretudo.

- Disseste Filhos de Rhazalah ...? – indagou Andrew – Um é mais velho, mais velho que eu?

- A...acho que bem mais velho, Andrew...

- São Filhos de Rhazalah... e um é bem mais velho que eu? – repetiu Andrew.

- Olha lá, és estúpido, ou queres que ela te faça um desenho?! – respondeu Charles impaciente, enquanto encaixava o carregador numa pistola que retirara dum coldre preso à perna direita.

- Sim, Andrew – respondi hesitante de olhos fixos nas árvores que ainda nos separavam dos nossos adversários.

Tínhamos começado a perder: designados para uma missão com contornos dúbios que não entendíamos, para enfrentar oponentes dos quais não possuíamos a mais vaga informação e, como se tal não bastasse, os nossos egos feridos turvaram-nos as mentes ao ponto de sermos imprudentes como três novatos... Por momentos acreditei que deveria ter guardado essa informação para mim. Mas apenas por momentos, até erguer o olhar sobre a silhueta de Andrew recortada contra o horizonte onde brilhava Arcana: apesar do corpulento Charles entre nós e da escuridão que nos envolvia, pude ver o sorriso luminoso do meu amigo. Um sorriso como nunca lho vira, uma mistura de alegria, alivio, conforto...de confiança restaurada e fortalecida. Do seu rosto e mãos desprendia-se uma estranha luz, a sua aura estalava em pequenas faíscas douradas.

- Já percebi, Daimon. Agora entendi tudo! Tudo!!! – deixou escapar entre duas risadas, que ressoaram na clareira mais alto do que eu e Charles desejaríamos.

- Bem, tu deves ter andado a morder fruta estragada hoje, meu grande desgraçado! Eu juro-te que vais acabar a noite a cuspir dentes!!! Eu rebento contigo, ´tás a ouvir !?! – ameaça Charles, irado.

- Não, vocês não estão a perceber...! – replica Andrew, agitando os braços em êxtase, indiferente à crescente ira de Charles.

Num esforço manifesto, Charles respira fundo e acende o cigarro, lançando um olhar ameaçador a Andrew – OK, Buda: Ilumina-nos!

- Os Filhos de Rhazalah possuem extraordinárias capacidades místicas que adquirem e desenvolvem ao longo das suas existências pelo estudo da Arte. É sabido que alguns, não poucos, dos Filhos de Rhazalah adquirem a aptidão de penetrar nas mentes de outros Filhos de Rhazalah, independentemente dos impeditivos do Espaço e do Tempo. Contudo, - continua Andrew, ofegante - esta capacidade, tão fenomenal como tenebrosa, é apenas acessível a Filhos de Rhazalah mais antigos, através de métodos que as Leis da minha Descendência não me permitem vos revelar...

- Andrew, – interrompi – então tu estás a sugerir que Janus e Daimon não nos revelaram quem eram os vampiros religiosos em questão, nem quaisquer outros pormenores, porque...

- ...porque com toda a certeza, têm um profundo conhecimento sobre quem é este Filho de Rhazalah e é evidente que, face à capacidade de ler as mentes de outros membros da sua Descendência, ele poderia saber em antemão que nós tencionávamos interceptá-los e eliminá-los, se eu também o soubesse! Pior: tendo acesso a qualquer fibra do meu pensamento, ele teria controlo sobre todos os meus passos. Poderia brincar connosco ao gato e ao rato pela floresta até se cansar e decidir eliminar-nos um por um, como lhe aprouvesse. É sem dúvida, uma das mais fabulosas capacidades da minha Descendência...

- Credo! – retorquiu Charles – Como é que vocês se aguentam uns aos outros...?

Andrew respondeu-lhe num silencioso olhar condescendente, de quem já esperava um comentário daqueles.

- Mas se estes vampiros só conseguem ler as mentes dos vampiros da Descendência de Rhazalah, não teria sido mais prudente não te enviar a ti, mas outro dos nossos companheiros que não pertencesse á tua Descendência? – perguntei.

- Talvez, cara Lilia. Mas aqui coloca-se outra questão: Para um vampiro Rhazalah com estas capacidades, haverá adversário mais oportuno que outro Rhazalah?

Talvez toda aquela história tivesse contornos que eu e Charles não conseguíamos entender na sua totalidade. Mas a Descendência de Rhazalah era envolta numa neblina de mistérios e segredos, e apesar de fantástica, a explicação de Andrew para a atitude de Janus e Daimon era lógica o suficiente para nós. E o suficiente tinha que bastar para podermos sobreviver a mais uma noite.

- Lilia, consegues perceber a que distância eles estão? – perguntou Charles, num sussurro.

Fechei os olhos, cheirei o vento que uivava por entre as árvores: - Pouco menos de mil metros – respondi.

Num gesto mecânico, Charles retira duas pistolas de dentro do sobretudo. Do outro lado, Andrew pendura um estranho amuleto de metal ao pescoço enquanto sibila palavras silenciosas, como uma prece. Lentamente, faço deslizar as minhas espadas por baixo do sobretudo. Cerro as mãos sobre os cabos frios, procurando algum alento que esta noite teima em vir.

- Pessoal, – diz Charles, enquanto esborracha uma ponta de cigarro contra o chão – Vamos dar cabo deles!


publicado por nocturnus às 18:43
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